30.12.09




Cheiro de Livro

Reencontrei um texto que escrevi em julho do ano 2000, ou seja, há quase 10 anos. Antes que eu volte a perdê-lo, resolvi republicar, pois não tenho mais o blog onde o havia publicado.

CHEIRO DE LIVRO

Jussara Simões -- 27/7/2000


O livro de papel tem seus méritos. Adoro cheiro de livro. Tenho mania de cheirar livro (quando ninguém está olhando, para evitar a fatídica camisa de força, naturalmente). Cada livro tem seu cheiro. Livro velho tem cheiro de biblioteca.

Livro de biblioteca às vezes vem impregnado de perfume, aquele cheirinho gostoso da loção de quem o folheou pela última vez. A gente fica imaginando como será aquela pessoa tão perfumadinha.

E o cheiro de charuto? A gente logo imagina um Dr. Freud com aquele olhar austero, sentado à poltrona com o livro aberto, apoiado na palma de uma das mãos, e a outra ostenta um cubano, soltando anéis de fumaça enquanto o leitor matuta, absorto, e se delicia com o sabor do charuto misturado ao da leitura. É, às vezes um charuto é só um charuto.

Certos livros têm cheiro de sala de aula de escola primária. Sabe aquele cheiro misto de merenda com massa de modelar? E voa a imaginação, volta à sala de aula, à professora ranzinza, ao guardanapo que envolvia o pão com
mariola ou a tangerina. O "fessora, posso ir ao banheiro?"

Outros livros têm cheiro de tinta fresquinha, aqueles recém-saídos da loja, que a gente não agüenta esperar até chegar em casa, entra no primeiro McDonald's que aparece, compra qualquer bobagem para ruminar e abre aquele troféu recém-adquirido, babando, não pelo McChicken, mas pelos tesouros que nos esperam dentro daquele baú que finalmente está nas nossas mãos!

E as coisas que aparecem dentro daqueles livros que passaram anos abandonados num canto da estante? Um dia a gente se lembra deles e passeia pelos becos das recordações!

É um recibo de pagamento da anuidade da UERJ. Puxa, 1982! foi a matrícula do segundo ano! Que loucura! Todos os personagens desfilam diante dos olhos... E o Carlão, hein? Quem diria! Solteirão inveterado vai se casar agora. E o Celso? Ah, esse continua criando palavras-cruzadas e bichos exóticos -- tem iguana, fuinha, tarântula... -- Do mal de Alzheimer nunca vai sofrer! -- Que fim terão levado a Rosa, a Naná, o Charles, o Aderson, o Antonio? Puxa... Quanto tempo!

Agora é uma folha de capim. A página está meio suja de terra. Ah, levei esse livro para ler em Visconde de Mauá com aquela turma muito doida. Aquele porre de "pinga com mér", Santa Clara, as cachoeiras... Cala-te, boca!

Nossa! Um extrato de conta de 1975! Não faço a menor idéia do que significaria hoje esse valor! Será que eu estava rica ou muito pobre? Como converter esses números em moeda corrente para saber como andava meu bolso há 25 anos?

É melhor parar de mexer nessas prateleiras. Se eu começar a cheirar os livros, um por um, e abrir para ver que surpresa vou encontrar fazendo as vezes de marcador de página, acabo escrevendo, eu mesma, um livro sobre os cheiros e as imagens que esses cheiros invocam.

1 Comments:

Blogger Denise Silva said...

Amei o texto.
Sou também apaixonada por livros, por seus cheiros, suas imagens, suas palavras e, principalmente, por suas histórias: as escritas, aquelas perdidas entre as páginas e as que ousamos imaginar entre as linhas.
Farei outras visitas ao seu espaço.
Aproveito a oportunidade e te convido para conhecer o meu (www.meudiariodeleituras.blogspot.com)
Abraços e feliz 2010 cheio de livros. Novos ou não.

20:45  

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