7.4.07




E os putos dos pronomes átonos?

Mais um texto publicado em 98 no antigo Translationpoint.


E os putos dos pronomes átonos?

A cada dia que passa fico mais arrepiada ao ler os jornais, as revistas e, principalmente, as mensagens das listas de tradutores que há na Internet. É uma triste constatação: praticamente ninguém conhece as regras de colocações de pronomes átonos. Onde usá-los? Antes ou depois do verbo? Há quem jamais tenha ouvido falar em próclise e ênclise. Sim, são palavrões, mas quem nunca ouviu falar nessas duas donzelas com certeza não sabe usá-las. Será que vale a pena ver de novo (ou ver pela primeira vez, para aqueles que nunca viram e acham que não existem regras para escrever)?

Já falei diversas vezes a respeito do nosso maior problema: as certezas. Não são as dúvidas que nos induzem ao erro, mas as certezas. Quantas certezas equivocadas carregamos conosco! Sim, claro, errar é humano, mas, como diz a sabedoria popular, insistir no erro é burrice! Sei que os milhões de pessoas que estão usando os pronomes átonos em locais errados estão agindo assim por pura ignorância. E a pior das ignorâncias é aquela que se julga sábia.

Se eu erro? Ora bolas! Isso é pergunta que se faça? É claro que erro! Atire a primeira pedra quem nunca errou! Mas tenho a sorte de ter amigos que apontam meus erros. Já que sou abençoada por ter amigos tão excelentes, resolvi compartilhar com todas as outras pessoas que vierem a ler esta página um pouquinho do que aprendi com meus próprios erros. Não consigo acreditar que, depois de saber como é que se usa o pronome átono, vocês todos, meus leitores, tenham coragem de continuar a cometer os mesmos erros.

Voltarei em breve ao assunto das certezas.

Vejamos o que diz o Rocha Lima:

É obrigatória a próclise:

a) nas orações negativas (não, nem, nunca, ninguém, nenhum, nada, jamais, etc.), desde que não haja pausa entre o verbo e as palavras de negação:
Não me recuses este favor.
Ninguém nos convencerá da tua culpa.
Nunca se viu tal arrogância...
Nada o demoveu do seu propósito.
Não faz a felicidade dos outros, nem se sente feliz ele mesmo.

b) nas orações exclamativas, começadas por palavras exclamativas, bem como nas orações optativas:
Quanto sangue se derramou inutilmente!
Deus o abençoe, meu filho!

c) nas orações interrogativas, começadas por palavras interrogativas:
Por que te afliges tanto?
Quem o obrigou a sair?

d) nas orações subordinadas:
[Quando o recebo em minha casa,] fico feliz.
É clara e arejada a casa [para onde nos mudamos.]
Espero [(que] me atendas sem demora.]

e) com advérbios e pronomes indefinidos, sem pausa:
Aqui se aprende / a defender / a Pátria.
Bem me avisaram / que ele era / um impulsivo.
Tudo se fez / como você / recomendou.

Havendo pausa, impõe-se a ênclise:
Aqui, / não há preconceitos filosóficos; aqui / não há distinções religiosas; aqui, não há desigualdades raciais; aqui, / estuda-se / e trabalha-se com amor.
Bem, / luta-se ou não se luta?

[in Gramática Normativa da Língua Portuguesa, Rocha Lima, 29ª edição. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora S.A, 1988]


Vejam trechinhos de textos que tenho encontrado cotidianamente com o emprego errado dos pronomes átonos:

o que me faz pensar que deve-se... (lista trad-prt)
saber que pode-se contar com amigos... (lista tra-prt)
A afirmativa de que pode-se curar as doenças (extraída da romipeige de um médico)
esclarece que deve-se prescrever somente um medicamento homeopático de cada vez (do mesmo médico)
Eu acho que deve-se acabar com o desmatamento (extraída da romipeige -- pasmem! -- de uma ESCOLA!
lsto significa que deve-se continuar trabalhando (extraída da romipeige do ex-presidente Collor de Mello)
Corresponde à proa+MR, sendo que deve-se deduzir 360 graus caso a soma ultrapasse esse valor (extraída de um GLOSSÁRIO!)
mas todos concordaram que deve-se regulamentar a profissão (palavras da diretoria do ENECOMP)

Os exemplos acima são apenas uma fração minúscula dos resultados de uma pesquisa só com a partícula que. Vou poupá-los dos resultados das pesquisas realizadas com as partículas negativas etc.

Toda vez que leio ou ouço uma colocação desajeitada como as dos exemplos acima, meus ouvidos fazem tuimmmmmmmmmmm!
Será que não há mais ninguém neste país que sinta dor de ouvido ao ouvir essas aberrações?

(Jussara Simões – 11-8-1998)

3 Comments:

Blogger Silvia D. Schiros said...

Ju, complicado. Outro dia, falando com uma amiga, comentei sobre o fato de que usar "por" + nome de autor era anglicismo, péssimo português, e que deveria mudar isso no blog dela. Ela acha que é preciosismo meu, que o "por" passa a mensagem adequadamente e não há problema.

08:58  
Blogger JPS said...

Silvia, hoje eu estava conversando com uma colega sobre esse problema da imitação do inglês. Os textos mal traduzidos são tão numerosos no nosso dia-a-dia, parece até que estão gritando. E, de tanto ouvir esses gritos, os brasileiros estão ficando surdos. Essa desculpa rota e esfarrapada da elipse de "escrito" está erradíssima, pois não há como provar que o verbo que sofreu elipse foi "escrito"; poderia muito bem ser "roubado", então, ao escrever por extenso para eliminar a elipse, ficaria "roubado por", não é mesmo? Então você pode dizer à sua colega que os textos dela podem muito bem ter sido escritos por ela quanto roubados por ela. Já a elipse do ver "ser" é líquida e certa: O texto é DE fulano. Contra fatos não há argumentos e o verbo ser ali usado é incontestável. O texto só pode ser ou não ser DE alguém, o que demonstra a impropriedade do uso do simiesco POR.
QED

17:30  
Blogger JPS said...

Não sei como editar comentários e, sem querer, comi uma sílaba da palavra verbo. Onde se lia "Já a elipse do ver "ser" é líquida e certa", leia-se "Já a elipse do verbo "ser" é líquida e certa". Desculpe a pressa.

17:31  

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