21.5.07




Apes will be apes - O maldito POR

Texto que escrevi em 24 de janeiro de 1999:

O que será que está levando à troca de "de" por "por"? Será que a mania ridícula de achar chique copiar a língua inglesa já extinguiu os últimos resquícios de raciocínio que ainda restavam ao povo brasileiro?

Qualquer texto escrito por alguém é de autoria de alguém, e não de autoria por alguém.

Por precede o agente da passiva (em um de seus usos), mas não é da índole da nossa língua a elipse do verbo no particípio passado nesses casos de voz passiva. Quando se usa o por na assinatura de um texto, o significado é o de substituição. Quando vejo um texto com um por fulano de tal logo abaixo do título, ou no final, o que me vem à cabeça é a substituição, ou seja, por fulano de tal significa que alguém escreveu NO LUGAR DE fulano de tal. Como o nome desse alguém não aparece nunca, tenho a impressão de que o ramo dos escritores-fantasmas está prosperando que é um horror!

Vejamos alguns exemplos encontrados ao acaso na Internet:

Lista Informativa MEUPOVO: Analise do IE4 - por B.Piropo

Uma nova Idade Média? POR MARCELO BAUER

E o que mais está me dando nos nervos é o slogan do canal Mundo: Somente por Mundo. Qual será o canal que está entrando no ar no lugar do canal Mundo?

Nos dois primeiros casos, a impressão que tenho é de que um anônimo escreveu no lugar do B. Piropo e do Marcelo Bauer. Por que eles não revelam quem escreveu realmente?

Quando uma pessoa assina um documento no lugar de outra escreve "por fulano de tal". A idéia que transmite um "por fulano de tal" é exatamente a de substituição.
Em inglês é comum haver a elipse do verbo. Usa-se "The old man and the sea, by Hemingway", omitindo-se o "written" antes do "by". Mas isso é possível simplesmente porque "by" não tem a multiplicidade de funções que o "por" tem em português.

Quando uma pessoa escreve no lugar de outra é incorreto usar "by" em inglês. Mas a turma está estudando inglês demais e português de menos.

Em conversa recente com a Lia Wyler, eu a ouvi dizer, com toda razão, "É a preposição que situa o indivíduo no mundo. Quando se troca a preposição, o leitor perde o referencial, o texto fica confuso, ambíguo, dá margem às mais diversas interpretações". E é o que está acontecendo. Não foi só a política econômica que perdeu o rumo, foi todo o raciocínio; ninguém mais pensa neste país.

O que vemos hoje em dia, entre redatores, escritores, jornalistas, tradutores etc. é a mania de decorar as preposições inglesas e esquecer que existem preposições em português. Ninguém quer errar as preposições quando escreve em inglês, mas ninguém dá a mínima para o uso das preposições em português. Já estão invertendo o sentido de vários verbos, só para tornar o português parecido com o inglês.

Vamos sair da bolha, gente! Vamos conversar com as pessoas em português, de preferência com pessoas que não vivam com a cartilha do inglês na mão, para voltar a falar e escrever português!

Enquanto estávamos no terreno da simples adoção de palavras estrangeiras, ainda dava para engolir. Mas não dá para engolir a distorção do sentido. Quando se usa o verbo "emprestar", atualmente, já não dá mais para saber quem emprestou, pois estão trocando o sentido do verbo. Tudo isso por uma falta de conhecimentos mais aprofundados a respeito das preposições inglesas e, principalmente, das portuguesas. Estão decorando um sentido -- e somente um -- para cada preposição inglesa e acham que é só traduzir "by" como "por", "from" como "de" e "for" como "para". Ninguém se toca que "for", por exemplo, em inúmeros casos significa "de", que "by" precisa ser traduzido como "de" quando há elipse do verbo na passiva, que "from" pode ser traduzido de diversas formas também. É o império da "cultura de sobrevôo".

Há alguns dias vi em uma revista um artigo traduzido por mim e lá estava "tradução por Jussara Simões". Nem elipse houve. A coisa ficou escancarada. Escrevi ao editor da revista e pedi, implorei, que ele trocasse aquilo por "tradução de Jussara Simões" ou "traduzido por Jussara Simões". Caso ele não quisesse trocar, pedi que retirasse o meu nome daquele artigo. Felizmente ele compreendeu e trocou por "tradução de". Ainda resta esperança?

Labels:

1 Comments:

Anonymous Luiz Reis said...

Definitivamente, é um horror esta troca que hoje se faz no português. E você fez muito bem em pedir a mudança na questão da tradução. Afinal, ali estava o seu nome. Eu faria o mesmo e se não me atendessem, sinceramente mandaria retirar a tradução do ar! Beijos!

10:51  

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

Links to this post:

Create a Link

<< Home