20.11.11




Curso de Tradução em Gotas I

Inicio hoje uma seção especial do blogue:
Curso de tradução em gotas

Na primeira gota vou falar de "as pessoas". 
O negócio é o seguinte: "as pessoas" enchem a paciência. 
Enchem os textos de "as pessoas" por pura falta de conhecimentos da gramática da língua portuguesa e, por conseguinte, da inglesa também.
Prestem atenção, diletos pupilos: em inglês não existe sujeito indeterminado. Vocês sabem o que é isso? Não sabem? Então pesquisem, ora bolas! Pesquisar e aprender não faz mal à saúde. E, como diz o meu amigo Paulo Cintura, "saúde é o que interessa, o resto não tem pressa!" Issaaaa!

Vou dar uma dica: quando alguém diz "tocaram a campainha" está usando o sujeito indeterminado. Quem tocou? Sei lá! 
A língua inglesa é obrigada a recorrer a gambiarras: "The bell was rung", "Somebody rang the bell" etc. etc. Como deu para perceber, sempre tem um sujeito, mesmo que o sujeito seja "somebody". Aí a gente diz pro angloparlante, perdeu, playboy! Em português a gente não precisa inventar um sujeito, é só usar o sujeito indeterminado, muito mais bonito, cheiroso e elegante: Tocaram a campainha! Uh-hu!

Em inglês, todas as orações precisam desesperada e imprescindivelmente de um sujeito. 
É um tal de "people think I'm stupid", "people didn't understand what you said" etc. 

Já ouviram falar da Navalha de Ockham? É o princípio da parcimônia: se puder fazer com menos, não faça com mais. 

Na língua portuguesa, a navalha funciona assim:
Em inglês se diz: People think I am stupid.
O tradutor despreparado sente vontade de traduzir assim:
As pessoas pensam que sou burro. 
Bem, pois é, né? Se ficar enchendo os textos de "as pessoas" pra cá, "as pessoas" pra lá, vão pensar que é burro mesmo.
Vamos dar uma navalhada de Ockham? 
Pensam que sou burro.  
Ou, se quiser, Estão pensando que sou burro.
Agora me responda aqui no pé do ouvido: "As pessoas" estão fazendo falta? 
Nenhuma! O sujeito indeterminado é uma maravilha! Não existe no inglês, mas, e daí? O inglês também tem tanta coisa que não existe no português! 

Criançada, use com abundância a Navalha de Ockham! O seu texto ficará muito mais agradável, elegante, bonito, gostoso de ler! 
Esse papo de "as pessoas" é coisa de quem sofre de tin ear syndrome, mas isso tem cura! E o melhor é que nem precisa de medicamentos, basta ler e estudar bastante. 

E a música de hoje tem mais um toque: em um número muito grande de casos, quando é preciso manter o sujeito "people" na tradução, rogo, imploro, peço encarecidamente que usem "gente". Ouçamos esta música consagrada da Barbra Streisande: People. Diz a letra "people who need people". Se fôssemos traduzir, "pessoas que precisam de pessoas" ficaria um horror, concorda? Então vamos de "gente precisa de gente". Ô coisa linda, vocês não acham? Agora vamos ouvir a deusa cantar?




People,

People who need people,

Are the luckiest people in the world
We're children, needing other children
And yet letting a grown-up pride
Hide all the need inside
Acting more like children than children
Lovers are very special people
They're the luckiest people in the world
With one person one very special person
A feeling deep in your soul
[- From :http://www.elyrics.net/read/b/barbra-streisand-lyrics/people-lyrics.html -]
Says you were half now you're whole
No more hunger and thirst
But first be a person who needs people
People who need people
Are the luckiest people in the world
With one person one very special person
No more hunger and thirst
But first be a person who needs people
People who need people
Are the luckiest people in the world...




Até a próxima, gente! (Ou será que vocês preferem "Até a próxima, pessoas!"? Eca!

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30.8.09




Vou reproduzir aqui um texto que foi publicado em http://www.novomilenio.inf.br/idioma/20010627.htm, em 2001. As referências a mim ali contidas já não são mais válidas, pois não tenho mais o URL mencionado nem moro mais em São Paulo. Hoje moro em Niterói e os meus URL são este blog e o do Twitter (tem um link ali no alto, acima do texto). Sempre fui conhecida como Jussara Simões, embora tenha 5 nomes, e o P. inserido no meio do nome eu não uso, mas é verdadeiro e foi brincadeirinha do editor, o Carlos Pimentel, que gostava de me provocar. De resto, o que descrevo num texto que já tem oito anos de idade continua verdadeiro, válido, e a situação só piora. Enquanto não voltarmos a ter escolas, em vez de refeitórios, nada vai mudar. Vamos ler cantando "Nada Mudou", do Leo Jaime!



Eis o texto de 2001 (mantive os erros de digitação):

Mitos e lendas dos estrangeirismos

Jussara P. Simões ()

Talvez seja conseqüência de um conjunto de fatores o que leva os brasileiros a imaginar como místicas e esotéricas as palavras ordinárias usadas no inglês para dar nomes às coisas. Nesse conjunto, constato a presença do deslumbramento pelos falantes de inglês, da ignorância da língua portuguesa, da ignorância da língua inglesa, da ignorância da cultura estrangeira, da ignorância de etimologia e da ignorância de semântica. Juntam-se todas essas ignorâncias e, sem precisar bater no liquidificador, surgem as palavras mágicas e as traduções literais, as traduções mal-ajambradas e a importação de palavras alienígenas em sua forma original. Precisamos exorcizar esses demônios.

Meu grande amigo Aristóteles Gomes, por exemplo, deve estar equivocado ao dizer que "commodity significa mercadoria, porém no jargão do mercado commodities são mercadorias que possuem cotações reguladas pelo mercado internacional. Na verdade, essas mercadorias funcionam quase como uma moeda - conversível. Por exemplo, o barril de petróleo custa x dólares. Nestas bolsas de mercadorias as transações podem acontecer inteiramente na troca de commodity, como se fosse dólar, real ou qualquer outra moeda verdadeira."

Agora pergunto: por que nós, os colonizados, precisamos de uma palavra diferente de mercadoria se os falantes de inglês não têm palavra diferente para isso? Eles usam a palavra commodities para designar mercadorias e a mesma palavra,commodities, para designar essas tais mercadorias que funcionam como moedas. Se eles têm uma palavra só para as duas coisas e não fazem confusão entre elas, pois o significado está no contexto - sabiam? - por que diabos precisamos nós de duas? O que eles têm a mais no intelecto que nós não temos? Quando alguém me responder a essa pergunta aceitarei a tal palavra esotérica.

Informatiquês - Vamos, agora, ao informatiquês, que é outro campo cercado de ocultismo (estaremos voltando à Idade Média?). A maioria dos conceitos da informática são novos, pois são invenções recentes. O que fizeram os principais inventores dessa área do saber? Apesar de terem criado objetos e conceitos novos, recorreram às palavras velhas de guerra, que já designavam outras coisas comuns na vida cotidiana. Por analogia com esses objetos e conceitos comuns, os inventores usam essas palavras comuns.

Quando chegam ao Brasil e a alguns outros países colonizados, a falta de conhecimentos da língua e da cultura, tanto de origem quanto de destino, leva nossos tecnocratas a manterem as palavras em inglês porque elas, exatamente por estarem na língua dos patrões, alcançam o status de totens, de ídolos, de ícones do louro deus estrangeiro. Não obstante, no país de origem, no Olimpo estrangeiro sonhado pelos súditos tupiniquins, essas palavras nada têm de místicas e, na verdade, o fato de serem palavras comuns ajuda muito os comuns dos mortais a entenderem seus conceitos e definições.

Faço, então, mais uma pergunta: o que os plebeus mortais dos países de língua inglesa têm que nós não temos? Por que eles têm o direito de entender os conceitos dessas novas invenções imediatamente e nós não temos?

Vejamos alguns exemplos.

Volto a bater na tecla do mouse. É a mais pura ignorância que leva os brasileiros a cultuarem o deus mouse, pois os inventores do objeto o acharam parecido com um camundongo e lhe deram esse nome devido à semelhança com o bichinho.

É cinzento e rabudo - bem, era, pois agora fabricam ratinhos de todas as cores. Só isso. As outras línguas do mundo traduziram o nome do objeto, deram-lhe o nome desse roedor. Qual é a mística da palavra mouse no Brasil para que se proíba os brasileiros de olhar para tal objeto e pensar num ratinho? Qualquer falante nativo da língua inglesa vai imaginar um ratinho, daqueles de desenho animado, ao olhar para esse objeto. Só os brasileiros precisam ficar dando tratos à bola e pronunciando uma palavra que analogicamente não lhes diz nada. Muitos brasileiros, por não conhecerem a pronúncia correta, pronunciam musse, o que os leva a indagar qual seria o motivo de darem nome de sobremesa a um objeto que não é macio nem doce!

O tapetinho que lhe serve de piso aqui manteve o nome esotérico mouse pad(almofadinha ou tapetinho do rato). Tantos são os brasileiros que não conseguem compreender esse nome que muitos, tentando dar-lhe sentido, já o chamam de pé-de-máusi, o que denota que não são burros, não são os retardados que os tecnocratas imaginam ao impor esses salamaleques à deusa platinada da língua inglesa. Os brasileiros têm imaginação riquíssima.

Media mídia - Só têm a imaginação bloqueada os deslumbrados por tudo o que vem das estranjas e que, infelizmente, formam a classe dominante, a dos meios de comunicação, que eles mesmos, babando, chamam de mídia por desconhecer que os anglos usam a palavra original latina media, que é o plural de medium - mas eles, que não sabem falar latim, pronunciam à sua maneira, isto é, mídia - e os brasileiros macaquitos macaqueiam, por ignorar que os macaquitos foram eles, os anglos, que pediram essa palavra emprestada ao latim porque não tinham palavra em sua própria língua para designar tal conceito. É irônico: os anglos macaqueiam o latim e os latinos nem percebem!

Antigamente, quando a informática ainda era assunto para iniciados, quando todos os programas ainda estavam em inglês, conheci muitos operadores de computador que diziam filé quando se referiam a file. Por quê? Porque não sabiam falar inglês e essa é a nossa maneira de pronunciar as palavras na nossa língua. A letra I nunca teve o som ÁI em português. Nada mais natural que recorressem à analogia com uma palavra portuguesa para pronunciar a palavra alienígena. Mas isso foi antes da invasão anglófona.

Alguns anos depois, quando os brasileiros que foram aprender a nova tecnologia lá fora começaram a voltar para o Brasil, estudaram tanto a informática que não tiveram tempo de estudar inglês e, pior, tinham saído daqui sem saber português.

Voltaram como robozinhos, repetindo as palavras correspondentes aos conceitos da informática, sem saber que elas correspondiam a objetos corriqueiros na língua original. Comparo os brasileiros que repetem as palavras inglesas como papagaios aos índios que chamavam espingarda de pau de fogo, que consideravam santos (ou demônios) os brancos que chegaram com a pólvora, pois conseguiam fazer fogo sem esforço nenhum. Esses brasileiros parecem bugres, que foram ao outro mundo e voltaram deslumbrados com as palavras novas, mas não tiveram a curiosidade de aprender seus significados plebeus.

Como era feito - Os anglos adaptam as palavras estrangeiras à pronúncia do inglês, assim como os franceses as adaptam à pronúncia do francês. No tempo do governo Reagan, eu ouvia sempre os noticiaristas franceses pronunciarem Regân quando se referiam ao presidente dos EUA. A banda de rock chamada Van Halen, que usa o sobrenome de Eddie Van Halen, artista holandês, e se pronuncia van rálen, ganhou a pronúncia van rêilen nos EUA por adaptação ao idioma local. O que fizeram os macaquitos brasileiros? Começaram a chamar o holandês de van rêilen, quando a pronúncia holandesa seria bem mais próxima à índole da nossa prosódia e bastaria pronunciar van hálen. Antes da invasão inglesa, a Volkswagen chegou ao Brasil e nós demos um jeitinho de pronunciar volksváguen, pois a pronúncia original alemã era mais difícil: folksváguen.

Naquela época, agíamos como manda o bom senso, como agem os anglos ao receberem palavras estrangeiras: adaptávamos a pronúncia estrangeira à nossa prosódia. Como é pronúncia já consagrada e que seria muito difícil mudar, estamos livres da praga de sermos obrigados a pronunciar volks-uáguen, como o fazem os anglos. Ainda bem! Infelizmente as coisas mudaram nos últimos anos e parece que perdemos esse bom senso e nos transformamos em papagaios dos anglos.

A deusa Nike deve estar dando cabeçadas nas paredes do Olimpo, pois o nome dela teve, durante tantos séculos, a pronúncia nique. Os anglos, corretíssimos, adaptaram essa pronúncia grega, para eles complicada, à sua realidade prosódica e pronunciam náik. Os brasileiros, que copiam tudo o que os gringos fazem, sem refletir - mas não copiam o mais importante, que é o patriotismo - macaqueiam a pronúncia anglófona e jogam no ostracismo todos os séculos de história da deusa Nique.

Voltando à informática, pois me desviei um pouco nos dois parágrafos acima, começaram, então, a traduzir algumas coisas. Até hoje me pergunto por quekeyboard virou teclado, mas mouse continuou sendo mouse, pois nas outras línguas latinas o bichinho ganhou seu verdadeiro nome, inclusive em Portugal, onde ele se chama rato. Por que essa mística do mouse?

Muitas palavras ganharam tradução, mas, por desconhecerem o significado, ou os diversos significados da palavra original, ganharam traduções confusas. Outras foram elevadas ao status de mantras sem significado algum: firewall (mera porta corta-fogo), backbone (simples espinha dorsal) etc.

Falsos cognatos - Antes do advento dos computadores, tínhamos directory em inglês e catálogo ou lista em português. A lista telefônica dos países de língua inglesa sempre se chamou directory e, no Brasil, ela se chamava catálogo telefônicoou lista telefônica. A palavra diretório era usada em português para designarcomissão diretora, isto é, não tinha relação com lista ou catálogo (alguém se lembra dos diretórios acadêmicos?). A turma da informática chegou dos Estêites repetindo a palavra directory e, por semelhança com a palavra diretório, nem quiseram abrir um dicionário para constatar que se tratava de falso cognato. Os brasileiros passaram anos a fio chamando directory de diretório, sem idéia do conceito original, que era simplesmente o de lista ou catálogo das coisas contidas no disco do computador. E só pararam de usar a palavra porque os patrões lá de cima resolveram mudar o nome da coisa. Agora é folder e, miraculosamente, a tradução adotada está correta: pasta.

Dentro dessas pastas entram os papéis, os documentos, listagens, tudo aquilo que é arquivado dentro dela. O arquivo é, portanto, o conjunto de pastas. O disco do computador (seja interno ou externo) é, por analogia, o gabinete cheio de gavetas que contêm essas pastas, que, por sua vez, contêm os documentos (files) arquivados. Em Portugal adotaram a analogia com os ficheiros (que aqui chamamos de fichários), mas, na minha opinião, usaram a palavra ficheiro para designar o objeto errado, pois ficheiro deveria ser a tradução de folder ou directory, e não defile; files seriam as fichas guardadas (saved) dentro dos ficheiros.

No Brasil também recorremos a imagens confusas. Se a analogia com o mundo dos objetos concretos fosse correta, deveríamos chamar de arquivo ao conjunto de files(fichas ou documentos) arquivados dentro das folders (pastas), que são inseridas nagaveta do gabinete (root directory) do arquivo (o disco). Mas estou apenas divagando, pois isso é batalha perdida.

Hardware e software também foram pelo mesmo caminho. Antes da informática,hardware store era o que chamamos aqui de “loja de ferragens”. O termo softwaresurgiu em informática para designar tudo o que não é hardware, isto é, hardware é objeto concreto e software é objeto abstrato. Só. Em informática, hardware são os equipamentos, as peças, os componentes, os discos e os disquetes; software são os programas e os conjuntos de programas que vêm em pacotes (DOS, MS Windows, MS Office etc.).

Assim como a palavra key, que tem uma infinidade de traduções e precisa de análise caso a caso para ser traduzida - dentre suas traduções figuram chave, tecla, tom (musical) e muitas outras - as palavras hardware e software também têm inúmeras traduções em português, dependendo do contexto. O que levou os brasileiros a venerarem essas palavras e decidirem que não têm tradução? A preguiça. A pura preguiça de procurar a palavra certa para cada caso. Exigir correspondência biunívoca entre dois idiomas é burrice, é empobrecê-los a ambos.

Caminhar e rir - Existem milhares e milhares de palavras que, ao passar para outro idioma, têm inúmeras traduções, dependendo inteiramente do contexto para que se escolha uma delas. Isso acontece em todos os idiomas.

Quem me lê já parou para pensar em quantas palavras os anglos usam para designar o simples ato de caminhar, ou o ato de rir? Em português somos obrigados a recorrer a paráfrases porque não temos correspondências biunívocas para essas palavras. E o contrário também acontece. Temos milhares de palavras em português que, quando vão para o inglês, precisam de traduções diferentes para cada contexto.

Vou dar um exemplo:

"What would you do if I sang out of key"? O key nesse verso dos Beatles é tom. "Sing out of key" é "cantar fora do tom", ou seja, desafinado (essa música é uma gozação com o Ringo Starr, que era - e ainda é - desafinadíssimo). "Where are my car keys?" significa "Onde estão as chaves do meu carro?", o que nos leva a traduzir a palavra key como chave.

"Press any key", frase tão usada em informática, "pressione qualquer tecla", nos faz constatar que key é tecla. Mas os informáticos querem, a todo custo, criar máquinas de tradução e não se conformam com essas polissemias. Quando comprei meu primeiro gravador de CD, subi pelas paredes ao ler a tradução do manual, pois traduziram TODAS as ocorrências da palavra track como trilha. O manual ficou praticamente sem sentido.

Nos discos de música, a tradução de track sempre foifaixa. Quem nunca falou que a faixa 2 do novo disco do Caetano é excelente? No sistema estereofônico, track é pista. Quem nunca ouviu falar nas mesas de gravação com 8 pistas, 16 pistas etc.? Existem casos em que track é trilha e me parece que em se tratando de informática, os discos de dados se dividem em trilhas. Os nossos informatas pegaram o manual que continha todos esses conceitos, pois os gravadores de CD gravam CDs de música e de dados, e resolveram que track é trilha e ponto final. Não existe coisa mais esquisita do que alguém ser obrigado a dizer que vai gravar a trilha 2 do novo CD do Caetano, ou que o disco foi gravado em “8 trilhas”, em vez de 8 pistas.

Não enganam - Por mais que nossos amigos deslumbrados tentem nos convencer de que as palavras em inglês são mantras, que são esotéricas, místicas, sagradas, não conseguirão. Não adianta saber como funcionam as engrenagens e as arruelas do sistema quando se desconhece o nome de cada engrenagem e arruela. Ocultar a ignorância com um turbante na cabeça e discursos místicos só engana a quem não conhece absolutamente nada da própria língua.

Uma vez li um livro cujo título era bem interessante (vou traduzir o título porque nunca vi esse livro em português): “Foi no jardim da infância que aprendi tudo aquilo de que preciso”. A origem da nossa tragédia é exatamente essa: no Brasil ninguém mais aprende na escola o que devia aprender, isto é, a língua portuguesa. Quando se domina bem o próprio idioma, todo o resto vêm em decorrência disso. Quem é capaz de ler, falar e escrever numa língua tem o único pré-requisito para aprender qualquer ciência, por mais complicada que seja.

Todos os deslumbrados com as maravilhas da língua inglesa desconhecem a riqueza da nossa língua e passam a procurar chifre em cabeça de cavalo para designar conceitos velhos e presentes na nossa língua há tantos séculos. A única coisa de que precisam os nossos veneradores da religião da língua inglesa é voltar ao curso primário e aprender a própria língua (e que os cursos primários brasileiros voltem a ensiná-la, em vez de só servir de refeitório para as crianças). O aprendizado da língua portuguesa seria uma espécie de exorcismo, pois desmistificaria a idéia de que tudo o que nasce ao norte do Rio Grande (para quem não sabe, Rio Grande é o rio que separa os EUA do México) é sagrado e imexível.

(*) Jussara P.Simões é tradutora em São Paulo e internauta, participante do fórum de debates do MNDLP.


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8.3.08




Os "químicos" do sr. Marcelo Ribeiro

Estive numa página com inúmeras traduções ruins de notícias científicas.
Escrevi ao responsável pelos textos ruins para explicar que "chemicals" é uma coisa e "chemist" é outra, mas o sr. Renato Ribeiro não entendeu e ainda me chamou de analfabeta. É nisso que dá se meter a tradutor sem ao menos saber qual é a diferença entre substantivo e adjetivo, não é mesmo? E a analfabeta sou eu. Só rindo mesmo.

Eis um trechinho de um dos originais que o moço acha que traduziu:

Female mosquitoes - the only ones that bite - are attracted to body heat and chemicals in sweat like lactic acid. But earlier this year, scientists at Rothamsted Research in England found that bite-resistant people also produce about a dozen compounds that either prevent mosquitoes from detecting them or drive them away. (o grifo em "chemicals" é meu, para facilitar a localização da palavra).
(http://www.nytimes.com/2005/06/21/health/21real.html)

Vejam o que o sr. Renato acha que é a tradução:

Os mosquitos fêmeos – os únicos que picam -- são atraídas pelo nosso calor corporal, pelo dióxido de carbono que exalamos na expiração e por químicos no suor como ácido lático. Mas uma pesquisa realizada em 2005 descobriu que pessoas mais resistentes a picadas também produzem cerca de 12 compostos químicos que evitam que os mosquitos os detecte ou os repele.
(http://tecnocientista.info/ndNews.asp?cod=6435)

"Químicos" no suor acho que só poderiam ser personagens do filme Viagem Fantástica. (Para quem não conhece, é um filme em que uma equipe de cientistas se encolhe até ficar praticamente do tamanho de uma célula para viajar por dentro do corpo humano.)

Fiz uma cortesia ao sr. Renato Ribeiro e ele retribuiu me ofendendo, dizendo que eu não sei ler. E olhem que nem comentei nada a respeito dos mosquitos fêmeos e da concordância verbal em "12 compostos químicos que evitam que os mosquitos os detecte ou os repele".

Eu não traria aqui o assunto se ele não fosse tão mal-educado. O número de traduções erradas num sítio que se autoproclama "tecnocientista" está extrapolando em muito os limites da boa vontade dos leitores e é um desserviço às ciências, desmoraliza os cientistas. Não vi também onde foi que ele publicou a autorização do New York Times. Será que ele tem autorização para publicar essas "traduções"? Será que o NYT sabe disso?

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31.12.07




Feliz Ano Novo! Sempre com o pé direito!

Lá embaixo, depois das artelhices e pentelhices, os meus amados leitores encontrarão a saudação de ano novo. Basta ter um pouquinho de paciência para ler um texto meio compridinho.

Sou do tempo em que, no curso primário, a gente aprendia os nomes de todos os ossos e ossinhos do corpo nas aulas de ciências.

Naquele tempo o meu pai tinha o hábito de tomar o ponto. Era o ponto alto do dia! Deve ter jovem aqui se perguntando que diacho é esse negócio de tomar o ponto. É, isso é coisa de velho mesmo, é do tempo em que a gente ia para a escola pura e simplesmente para estudar, as escolas ainda não tinham virado refeitório.

Pois é, falávamos de tomar o ponto. Tomar o ponto era fazer perguntas a respeito da lição daquele dia. A gente treinava em casa porque a professora tomaria o ponto na aula seguinte. Podem falar o que quiserem da didática daquele tempo, mas eu adorava recitar as respostas e muitas delas nunca mais esqueci.

Dentre as coisas que aprendi naquela época estão os nomes dos ossos das mãos e dos pés (na verdade, são regiões, cheias de ossinhos menores), que a gente recitava nas provas orais (hoje extintas):

Carpo, metacarpo e dedos

Tarso, metatarso e artelhos

Os dedos e os artelhos se dividiam em falange, falanginha (hoje falange medial) e falangeta (hoje falange distal). E eu me perguntava o que os anjos tinham a ver com os dedos. Como podiam caber tantos anjos dentro de ossinhos tão pequenos? Mais um mistério da angelologia.

Agora parece que inverteram o mapa do pé e os artelhos se mudaram para o outro lado. Sei lá, entende? Em 50 anos muita coisa pode mudar e sabemos que recentemente andaram fazendo umas mudanças na nomenclatura anatômica. Não me conformo com algumas delas, não gosto de chamar o ouvido de orelha, mas quem sou eu para me opor? Se as traduções médicas já eram terra incognita para mim antes da reforma, hoje em dia só caio nessas ciladas quando, por puro azar, aparece algum trechinho que fale de casos médicos no meio de algum livro que eu esteja traduzindo, como aconteceu em um que terminei recentemente. Era um livro de economia comportamental (enrolaç... opa! ciência nova) e, lá pelas tantas, o cara começou a contar um caso de cirurgia artroscópica, é mole?

Pior ainda foi o livro do Bruce Lee, que me obrigou a comprar a Terminologia Anatômica da SBA para poder traduzir aquela infinidade de músculos que o nosso ídolo trabalhava (e pedi à editora que contratasse um revisor técnico experiente). Mas, no livro do Bruce Lee, que bem me lembre, ainda não tinham invertido o pé e acredito que os artelhos do astro ainda estivessem na parte da frente, e não atrás dele. Mas não está aqui quem vai discutir a respeito da posição anatômica dos artelhos. Além do mais, todos sabemos que os artelhos do Caipora sempre ficaram atrás - ou na frente? Aí depende, né? Eram dedos ou articulações? Pelo que pude entender da complicação toda, os artelhos que ficam atrás do pé não são ossos, são articulações, o que já são outros 500 merréis e não pretendo perder tempo com isso aqui.

E, já que me lembrei da Terminologia anatômica, eis a página que contém a lista de ossos dos pés. Ao que tudo indica, depois de se mudarem, os artelhos sumiram. Ou será que nunca estiveram ali? Quem sabe seriam ossos do pé do ouvido? Ou do pé de anjo? Do pé na tábua? Já sei, o artelho se mudou quando ficou com o pé atrás. Ou, sei lá, um belo dia acordou com o pé esquerdo, pegou a trouxa e deu no pé. Deve ter sido fácil carregar a trouxa dele, que estava quase vazia, e ele a carregou com um pé nas costas.

Também procurei nas articulações do pé, mas não encontrei a palavra artelho. O artelho morreu! Viva o artelho! Fazer o que, né? Eu é que não me meto nessa história nem vou teimar que o artelho seja aqui ou ali. Na pior das hipóteses, o artelho é primo-irmão do pentelho. Pelo menos rima.

De resto, chegada a hora de dar um pé na bunda de 2007, desejo que entremos todos com o pé direito e de pé quente em 2008! Que nenhum de nós caia na tentação de traduzir sempre ao pé da letra; que não tenhamos medo de bater o pé quando os clientes quiserem meter os pés pelas mãos e enfiar o nariz (Hein? Mas não estávamos falando dos pés?) onde não devem; temos de fincar pé!

Que 2008 seja o ano de consolidar o nosso pé de meia e que possamos, definitivamente, tirar o pé do lodo. Que os nossos sonhos se realizem, mas que continuemos sempre de pé no chão, porque 2008 é um ano que vai dar pé! E se a gente tropeçar, escorregar, que sempre caia de pé!

Que 2008 nos espere de portas abertas, que não precisemos de pé de cabra para abri-las e, principalmente, que ninguém enfie o pé na jaca para poder ficar de pé quando amanhecer o primeiro dia do novo ano. Que a festa do reveillón seja animadíssima para que possamos exibir nossos dotes de pé-de-valsa.

Enfim, juro de pés juntos que desejo a todos vocês mil vezes tudo o que me desejaram em todos os anos anteriores e um milhão de vezes tudo o que vierem a me desejar daqui para a frente!

2007 está com o pé no estribo e 2008 vem chegando pé ante pé. Que a permanência do nascituro seja sempre suave, tranqüila e repleta de saúde! Muita saúde para aturar os clientes pé no saco, os que pegam no pé e os pé frio! Que estejamos sempre à altura dos serviços que aceitamos fazer e possamos fazê-los com um pé nas costas!

Feliz 2008!

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2.12.07




Decalcomania Du Jour

Tenho visto por aí a mania generalizada de fazer decalque do inglês em coisas que, em português, ficam com o signifcado oposto ao que teriam se em inglês estivessem.
Os neurônios dos brasileiros que fazem isso já foram devorados pelas leituras de inglês e de decalques.
Exemplo: Eu não poderia concordar mais. Em português, isso SEMPRE quis dizer que a pessoa um dia concordou e agora parou de concordar em razão de algum impedimento. Os autores dessas frases em português pretendem fazer decalque do inglês I couldn't agree more, mas pouco sabem tanto de inglês quanto de português. Caso soubessem, fariam a devida modificação que transformasse o I couldn't agree more em frase de teor semelhante em português. Em geral, o lusófono que não fosse decalcomaníaco, diria Concordo plenamente ou frases parecidas, de acordo com a tradição e a índole do vernáculo.

Cuidado com o decalque irrefletido, minha gente!

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11.11.07




Tradução erradíssima du jour

Estava na sala tomando um café com leite e vendo o filme Como se fosse a primeira vez, que está passando na Globo, talvez pela milionésima vez. Sou fã do Adam Sandler e resolvi ficar assistindo, mesmo depois que o café acabou. Sempre que esse filme passa, assisto a trechinhos e volto ao trabalho. O trechinho de hoje eu nunca tinha visto. A certa altura, começa a tocar Another Day do Paul McCartney, cuja letra sei de cor desde os 15 anos de idade.
O filme está dublado, mas a música foi legendada. Pelo sotaque dos dubladores, foi dublado no Rio (pode ser que não, já que hoje em dia há trabalhos compartilhados, mas neste filme as vozes são 100% cariocas).

Quando entraram as legendas eu estava despreparada para anotar qualquer coisa, portanto só pude decorar uma delas e corri para o escritório. Vejam a calamidade!

Original:
Slipping into stockings, stepping into shoes *
(Acho que a tradução poderia ser mais ou menos assim: Desliza os pés para dentro das meias e calça os sapatos. Ou algumas outras alternativas, que é o tipo de frase que admite isso.)

Quem legendou a música só fez confirmar o que sempre digo: quanto maior é o número de dicionários acessíveis, até mesmo de graça, na internet, maior é o número de ignorantes que não os consultam nunca! Além do mais "slipping into stockings" e "stepping into shoes" são frases de uma clareza praticamente cinematográfica na letra dessa música. Mas vejam a legenda:

Escorregando em meias, tropeçando em sapatos!

O que uma criatura dessas pretende? Minha nossa! E ainda tem gente por aí fazendo questão de bradar aos 4 ventos que as legendas estão cada vez melhores! Será que se referem à cor dos caracteres, que estão mesmo mais legíveis hoje em dia? Só pode ser, pois aquilo que li é um aleijão!

Em vez de moça organizada e arrumadinha, que vive uma rotina super monótona todos os dias, o nosso legendeiro improvisado transformou a coitada em uma criatura desmazelada, que espalha meias e sapatos pelo chão da casa. A isso denomino falta de responsabilidade total e irrestrita na tradução! Se eu fosse o Paul McCartney e tomasse conhecimento dessa tradução grosseira, juro que processaria os (ir)responsáveis por ela.

O que me revolta ainda mais é que essa porcaria passou por MUITOS olhos, passou até pelo "controle de qualidade" da Globo, que tem mania de rejeitar dublagens por qualquer bobagem, até pela falta de um batimento cardíaco.

Esse povinho que defende as legendas porque a qualidade anda maravilhosa não entende inglês, com toda certeza!


Só posso encerrar com uma frase do Umberto Eco que resume tudo o que eu sempre disse e todas as minhas batalhas (por sinal, sempre perdidas) no tocante à responsabilidade dos tradutores: Sempre considerei que a tradução propriamente dita é uma coisa séria, que impõe uma deontologia profissional que nenhuma teoria desconstrutivista da tradução poderá neutralizar.



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* (c) Copyright 1971 by Paul and Linda McCartney. McCartney Music, Inc., owner of
publication and allied rights of Linda McCartney throughout the world except
United Kingdom. All rights reserved.


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26.6.07




Palavra em Risco de Extinção du Jour: Azar

O mais recente falecimento iminente de que dei conta é o da palavra azar. Que pena. Ela sempre foi usada em oposição a sorte.

Se estivesse com tempo de sobra, eu teria muitos casos para contar, mas acho que dois já servem de exemplo. Tenho certeza de que meus queridos leitores terão outros casos para contar também.

O primeiro exemplo é de uma tradução de videogame que fiz recentemente. O original era "Bad luck!" - uma exclamação que surge na tela quando o jogador perde. Em português, escrevi "Que azar!", a tradução óbvia. Os revisores lusitanos mandaram trocar por "Você não deu sorte", com a justificativa "Expression not used in this context". Tenha a santa paciência! Fiquei aborrecida com essa demonstração medieval de superstição.

Sábado, assistindo a um programa de TV, uma personagem, ao falar em espelho quebrado, disse que seriam "sete anos sem sorte", em vez de "sete anos de azar". Nasci e cresci ouvindo a expressão "sete anos de azar" e não vejo motivo nenhum, a não ser mera superstição medieval, para a troca de azar por sorte. É um absurdo que não tem o menor cabimento! É simplesmente ridículo, é uma troca que faria sentido no século XIV, ou XV, mas apelar para esse tipo de preconceito contra a palavra "azar" em pleno século XXI me embrulha o estômago. Francamente!

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17.5.07




Tudo em excesso mata

Escrevi o texto abaixo em 21 de agosto de 2000. Agora o português esquisito já está em todas as bocas, e não só na escrita. É doloroso ver a sintaxe inglesa se infiltrar e enfear tanto o português.

Quem diz que a dose excessiva de inglês não é letal deve achar bonito abrir o caderno de informática do Estadão e ver:

Cuidados devem ser tomados ao desinstalar programas do Windows.

Tem gosto pra tudo! Pode ser que exista gente aí achando bonito e idiomático o enunciado acima. Pois eu acho um horror! Pelo menos a história de Asterix entre os gauleses é engraçadinha. Já um título de matéria jornalística tão horroroso só dá vontade de fechar o jornal e nunca mais voltar a ler. O jornal é brasileiro e a matéria está na seção "Falha Geral", em resposta à carta de um leitor. Era de se esperar que essa resposta fosse escrita em português, pois não? É por aí que vemos um buraco muito mais embaixo do que o simples zelo pelo léxico e pela gramática. O enunciado acima não tem erro ortográfico nem gramatical. Mas parece o Tarzan falando com a Chita! A frase, ao passar por máquina de tradução, vai redondinha para o inglês, bem certinha e bonitinha.

É claro que preciso admitir que não pode haver lei no mundo que acabe com situações como essa, cada vez mais comuns. Estamos os brasileiros escrevendo em formato de máquina de tradução, remando contra a índole da língua, tudo isso em conseqüência da intoxicação de inglês em todos os veículos de comunicação de massa. O que fazer?

Não sou xenófoba e acho que a influência do jazz foi uma maravilha, pois gerou um filhote chamado bossa-nova, que invadiu o mundo inteiro com o nome original: ninguém conseguiu traduzir. Existem tantas palavras intraduzíveis! O livro "Palavras sem Fronteiras" é um verdadeiro tijolaço! Além disso, pela aberração que vemos acima, que já virou praga, dá para perceber que o problema é muito mais grave do que a simples importação de palavras. Posso muito bem usar uma ou outra
palavra estrangeira e ainda assim falar português (quem aqui não gosta de comer um quibe ou um sushi de vez em quando?). Deixo de falar português quando começo a usar palavras do léxico português e amontoá-las em construções esquisitas, desajeitadas, estranhas.
É exatamente o mesmo que escrever "I like of you". Usei palavras em inglês, não usei?
Mas "I like of you" é inglês?
Gimme a breeeeeak! (Me dá um breque?) Os brasileiros estão escrevendo com sotaque de gringo! Que nome dar a isso? Complexo de inferioridade? Exílio dentro de casa? Burrice?

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5.5.07




Anglicismo semântico du jour - 5/5/2007

A influência de search for sobre o verbo buscar resultou num aleijão feiíssimo: buscar por. De poucos anos para cá, mais precisamente depois da invenção dos "search engines" na Internet, os brasileiros, despreparados para as novidades e - há muito tempo - sem conhecimentos suficientes do vernáculo, além de sofrer as conseqüências da velha tradição brasileira que acha feio consultar o dicionário, resolveram que o verbo buscar precisa da preposição por só porque o search precisa de for. Tenho, porém, uma péssima notícia para os macaquitos: o verbo buscar não precisa desse por, que, além do mais, é muito feio!

Essa mania ridícula de enfiar preposições inglesas onde não existem está transformando uma das mais belas e ricas línguas em arremedo horroroso do inglês. Enfiar por onde não existe dá dor de ouvido! Quando ouço na TV os colonizadinhos (Jô Soares, por exemplo) americanizando o português, além de sentir dor de ouvido ainda fico com o estômago revoltado.

Vejamos o que diz o dicionário de regência verbal:

BUS.CAR

v.t. 1. Procurar. 2. Investigar; pesquisar. 3. Examinar; revistar. 4. Tratar de obter; tentar. 5. Ambicionar; cobiçar.

REGÊNCIA VERBAL

BUSCAR

TD(I): buscá-lo (em, entre…). Tratar de adquirir, obter, conseguir; tratar de achar, descobrir ou encontrar: "Quem busca trabalho tem comida no borralho" (Provérbio). "Não busques o pão no focinho do cão" (Provérbio). Busquei-o entre os colegas e não (o) achei.

Tratar de trazer ou levar: Manda buscar os livros.

Dirigir-se para: Os rios buscam o mar.

Procurar conhecer; investigar, pesquisar: Buscar a causa de certos fenômenos.

Revistar, esquadrinhar: Buscou a casa toda.

Empenhar-se em, esforçar-se por, procurar: "Buscamos resolver o problema" (Jucá).

Recorrer a, procurar: Buscou a ajuda dos amigos.

Imaginar, idear (maneiras, saídas, etc.); inventar (pretextos, desculpas).

(Dicionário Eletrônico Luft, Editora Ática)

Digam-me, depois de ler o verbete acima, de onde saiu essa praga do buscar por? Exatamente do search for. E os tradutores improvisados que nunca traduziram search for por buscar por, dêem um passo à frente. Como? Ninguém deu um passo à frente? Todos já macaquearam o search for impunemente? E qual é a desculpa? Preguiça mental? Ignorância? Falta de dicionário para consultar?

O excesso de leitura de textos em inglês ou mal traduzidos em português (mais de 90% do que se lê na Internet) ou na literatura de quinta e na imprensa acaba levando aqueles que não conhecem a boa literatura a imitar o que lêem. Num país onde, não sei por que, criaram o tal mito de que é feio consultar dicionários e enciclopédias, também é feio ler bons livros, pois o bom português se tornou constrangedor neste país de analfabetos funcionais.

O pior disso tudo é a agressividade dos que recebem um toque a respeito dessas regências canhestras, que estão transformando a nossa língua em arremedo do inglês. O português e o inglês têm DNA diferente, provêm de troncos distintos e cada uma tem lógica própria, bem diferente da lógica da outra. Forçar a índole do português a ser igual à do inglês é o mesmo que obrigar vacas a voar.

Os colonizadinhos não vêem nada de errado em forçar a barra das regências verbais e impor a elas as regências inglesas, o que dá origem a esses monstrengos como buscar por e todas as outras regências forçadas e feias. Mas esses mesmos tradutores acham muito natural que um verbo transitivo indireto em português (por exemplo, gostar – regência: gostar de) se torne transitivo direto em inglês (like – não existe "to like of"). Será que alguém saberia dizer qual é o motivo dessa lógica perneta? Quando vertem para o inglês os brasileiros se esforçam por não errar na regência, mas quando traduzem do inglês para o português impõem ao português a regência inglesa. Insisto na pergunta: Por que os brasileiros não dizem I like of you? Se não fazem isso, por que dizem buscar por? Dois pesos e duas medidas?

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29.4.07




Poetics and the Curse of Irony

Hayden White, Metahistory (1973)
Douglas Robinson, The Translator's Turn (1992)


(in http://vunex.blogspot.com/2006/12/poetics-and-curse-of-irony.html)
by Conrad H. Roth


The similarity between these two books is not immediately evident—the one a critique of nineteenth-century historiography, the other a translator's manifesto. Both, however, have their roots in the tradition of American literary criticism represented by Kenneth Burke and Northrop Frye—brilliant outsiders who have remained hugely influential without becoming part of the mainstream, a position analogous to that of, say, de Chirico in modern art. White and Robinson, like Burke and Frye, aspire to philosophical system: they create grand structures into which they fit their analyses. And like Burke and Frye, White and Robinson see language—tropes, plots, speech-acts—as the basis of their systems. They are therefore sceptical about language, interrogating it, suspicious of its tactics and subtleties. They are, in another word, ironists, which is to say they are members of that vast crowd of postmoderns avant la lettre.

In The Rhetoric of Religion (1961), Burke describes religion as the arbitrary canonization of a single principle, a rhetoric confused for a metaphysics. For Burke, religion is ultimately poetic, and so just as a poem can have a guiding metaphor, so can a faith; he calls this guiding metaphor a 'master-trope' or 'god-term'. Frye, in his late and lesser-known The Critical Path (1968), compares Marxism and Christianity as examples of 'myths of concerns', patterns of rhetorical language designed only to convince:

The real enemies of such movements are not those who oppose but those who are indifferent: the opposite of faith is not doubt, but the inability to see what all the fuss is about.

Both Burke and Frye deny to religion what they deny to literature—that which structuralists call 'positive truth', the notion that a claim has any validity beyond the confines of its own contextual system. There is only a circular 'relative truth', created by sophisticated structures of linguistic tropes. These tropes go back to Aristotle—metaphor, metonymy, synecdoche, irony. They are, in essence, ideals of the relations possibly existing between two objects: metaphor is the relation by similarity, metonymy the relation by contiguity, synecdoche the relation of part to whole, and irony the relation by inversion. (Individuals will quibble about the exact definitions.) And by this extreme analysis, complex ideologies and patterns of thought are reduced to their conceptual atoms. Without objective validity (as real atoms have), these units form not a science but what both Burke and Frye, following Aristotle again, call a poetics, a structure of contingent associations, a vocabulary of parts and aesthetic networks.

*

Burke and Frye, then, turned religion and literary criticism into poetics; in the same manner, White turns historiography into a poetics—'I have attempted to establish the ineluctably poetic nature of the historical work'—and Robinson does the same for translation studies. White will use the four poetic tropes to classify modes of writing history, and Robinson will use them to classify methods of translating.

The debts are explicit—White makes copious reference to Frye, and Robinson to Burke. In his masterpiece, Anatomy of Criticism (1957), Frye recycled and developed Aristotle's fourfold classification of drama as epic (romance), tragedy, comedy and satire, and found these archetypes in the entire run of Western literature, from Homer to Joyce. White, likewise, recycles Frye's expanded categories to classify historiographical writing of the 19th century—Michelet writes romance, Ranke writes comedy, Tocqueville tragedy, and Burckhardt satire. These words have become loosed from their conventional meanings, but not completely—satire, for instance, is revealed not as the moralistic surrision of Pope and Swift, but as the monstrous absurdity of Jarry and Beckett, and is shown to deny all comprehension of man's struggle among his own and with the natural world. Burckhardt, with his aestheticism and his distrust of objective historical accuracy, becomes a sort of gloomy fantasist, painting the Quattrocento as he would have dreamt it, as a moment of perfect light and liberty, between the ecclesiastical repression of the Middle Ages and the political conformism of modern times. Satire, in its turn, corresponds to the trope of Irony, which subverts the connection between a word and its referent.

There's a lot more to White's system—he adds more fourfolds, such as (radical, anarchist, liberal, conservative) and (mechanist, organicist, contextualist, formist)—and much of it is convincing. At times, however, the patterning wears a little thin. Frankly, it is difficult for me to keep in mind the image of Burckhardt as a nihilist jester, abandoning the narrative plots of Michelet and Ranke for an impressionist pointillisme of his subject. The abstract here comes too forcefully before the particular.

But irony is what interests White the most. It would not be too great an exaggeration to say that he perceives irony to be his bugbear, his nemesis. Such a perception is the hallmark of the postmodern condition. White diagnoses twentieth-century historiography as a largely unsuccessful attempt to escape the grip of irony—a mood which distrusts the grand narratives of historicism, preferring the simple and mythical, the direct and fragmentary—and which leads to a stifling scepticism towards intellectual endeavour. Yet White fully admits the irony of his own work:

It may not go unnoticed that this book is itself cast in an Ironic mode. But the Irony which informs it is a conscious one, and it therefore represents a turning of the Ironic consciousness against Irony itself.

Unfortunately, Irony is a stronger foe than White credits, and indeed a stronger combatant than White himself. Umberto Eco, in a rare moment of lucidity, put the postmodern condition, the condition of irony, like this:

A man who loves a very sophisticated woman knows that he cannot say to her, "I love you madly," because he knows that she knows (and that she knows that he knows) that these words have already been written by Barbara Cartland. Still, there is a solution. He can say this, "As Barbara Cartland would put it, 'I love you madly'." At this point, having avoided false innocence, having said clearly that it is no longer possible to speak innocently, he will nevertheless have said what he wanted to say to the woman: that he loves her, but he loves her in an age of lost innocence.

I find something unpalatably, uproariously true in these words. And so they come irrefragably to mind when I discover White caught—unintentionally—in the same state, writing about two key metaphors in the work of Benedetto Croce:

I shall forgo the temptation to interpret them in a Freudian manner as phallus and womb, not because Croce condemned every effort at psychoanalytical historiography, calling it "valet's history" and deriding its practitioners as pseudo scholars seeking a cheap interpretation without the work required by true historical comprehension; but because, in accordance with this prejudice, Croce refused to reveal enough about his private life to permit muster of the kind of detailed evidence that alone can render a psychoanalytical interpretation convincing.

In 'forgoing' this temptation, of course, White has succumbed to it—he has no need of spelling out the Freudian interpretation, only of suggesting it. The ironic condition manifests itself as insecurity, the need to defend oneself against all possible charges of omission. This process reached its nadir in Sorrentino's fascinatingly awful novel Mulligan Stew (1979), which opens with a series of arch replies to editorial rejection letters, in this case richly deserved. In academic terms, the condition was strongly developed by writers like Frye and Burke, who removed the objective foundations of criticism, and who wrote in a polemic and defensive mode to compensate. I try to conquer this insecurity in my own writing, but not with complete success, as this very sentence attests. And so the great and terrible monster Irony consumes me, just as it consumes White—Irony cannot be turned against Irony, as the only thing that can defeat Irony is ignorance, which is impossible to achieve except by senility, lobotomy, or a nasty fall. Once you eat from the tree of knowledge, then your eyes shall be opened, and ye shall be as gods, knowing good and evil. And you shall know that you are naked, and hide yourself. There will be no going back.

*

Hayden White's Metahistory is designed to prove that what we consider good historiography is only one possibility of several, all equally valid. Douglas Robinson's The Translator's Turn is designed to prove that what we consider a good methodology of translation is only one possibility of several, all equally valid. His particular aim is to debunk the hegemony of 'sense-for-sense' translation, something for which I've always felt some distaste. As a reader who likes surfaces, I find sense-for-sense translation over-conservative and stifling. Robinson clearly feels some kinship not only with Burke and Frye (both of whom critique the valuation of content over style) but also with Barthes and Derrida, whose pompous projects are really no more than attempts to recover the value of the signifier over the signified, style over content, or in Derrida's terms, writing over speech. It is the latter allegiance which causes Robinson to reproduce in a later book some terrible Sokalian piffle, Derrida on 'iterability':

Because the possibility of reuse (and thus what may in some new use need to be defined as a misuse) is present in every "original" or "ordinary" context, a wedding in which the minister says "I now pronounce you husband and wife" is never simply "one" context which, subtracted in a philosophical discussion, would yield the "null context." It is always a fraction between one and zero, a fractal between binary poles, a fractured context or contextuality.

This is Robinson, lacking (like Derrida) any real command of language, at his worst. But there is fruit to be salvaged from his project. In the earlier book, he posits a series of methodologies under the rubrics of rhetorical tropes (just as White had done for historiography), which Robinson calls (following Burke) 'master tropes'. Since irony has been a theme of this post, let's look at what Robinson thinks an ironic translation is:

The ironic translator wants to succeed this way too [ie. to overcome the impossibility of translating perfectly], but not by seeking equivalence—rather, by denying its possibility.

There are a number of ironic translation stances. One says, "The SL [source language] text is too brilliant, I can't translate this, I'm not a good enough translator, maybe nobody is." A second says, "This isn't the original, this is just a translation, don't start thinking you're reading the real thing, here." A third says, "Look how bad the SL text was, I'm just rendering it faithfully, don't kill the messenger."

Here we see the same anxiety, and the same attempt to forestall criticism, as we encountered above with White, Sorrentino, and myself. Robinson mounts a stirring polemic defence of the translator's art: he is desperate to show that the translator is not inferior to the original writer, and that he should not show obeisance or humility towards the text with which he is working. In other words, Robinson advocates an ironic attitude for the translator—and his various other tropes amount to the same consciousness via a different route. It explains Robinson's more outlandish propositions, for instance, that the translator should make shit up, especially when rendering functional reports:

The meteorological translator [ie. of weather reports] who feels bored can begin to vary his or her translations, experiment with variety, staying at first within the bounds of acceptability—referring to groundhogs or bunions, livening up his or her discourse with sportswriter-type verbal creativity—then carefully pushing past those bounds, testing the water. This means risking his or her job, of course; but then, surrendering to the boredom means risking his or her sanity, and one has to set one's priorities in this sort of thing. . . it is arguably better to quit after six months of subversive delight than after six months of mind- and body-numbing boredom.

Who can fail to admire this sort of brio? Naturally, Robinson's anti-authoritarian (though irritatingly PC, as evidenced by the relentless 'or hers') aesthetic leads him to delight in Zukofsky's Catullus, an example of the 'homophonic translation' covered at Languagehat here. There's an amusing passage where he gives a literal paraphrase of 'Minister wet to lee, pour the Falernian', etc. The result is total nonsense, of course. Robinson attempts an innovative translation of Jorge Guillén's poem 'Desnudo', admitting, with a modesty false but nonetheless warranted, that 'I am no poet'. The irony is that someone full of ideas, and with a keen insight into the wretched clichés and prejudices of translation studies, should turn out to be completely incompetent at translating. Robinson is gorged on the theories of others—Burke, Derrida, Thomas Kuhn, later Grice and Austin, even the cutting-edge neuroscience that would beget Damasio's Descartes' Error in 1995—and yet he dismisses theory, or rather advocates theory as a way of transcending theory, in favour of practice. But in practice, Robinson has no feel for the English language. With Robinson, as with White, we see the triumph of the abstract over the particular, theory over practice. Their formal systems are full of valuable observations, and yet amount, for all their sophistication, to symptoms of the same ironic condition that afflicts us all.

(From: http://vunex.blogspot.com/2006/12/poetics-and-curse-of-irony.html)

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